Por Mateus Quelhas – Sócio e Diretor de Novos Negócios e Inovação |
Em um mercado onde a velocidade das mudanças desafia modelos tradicionais, repensar estratégias é não apenas necessário, mas vital. Entre essas estratégias, destacam-se os spin-offs e as aquisições estratégicas (M&A – Mergers and Acquisitions), que vejo como ferramentas poderosas para transformar mercados, impulsionar a inovação e gerar valor sustentável. Quero compartilhar aqui minha visão sobre como essas práticas têm sido protagonistas em setores como cosméticos e farmacêutico, e como um caso específico, o Milimetric PRO, redefine o conceito de spin-off no Brasil.
O que são M&A e Spin-offs?
M&A, ou Fusões e Aquisições, representam mais do que transações financeiras: elas são um caminho para acessar novas capacidades, expandir mercados e criar sinergias estratégicas. Já os spin-offs, que consistem na separação de uma unidade de negócios para formar uma nova empresa independente, oferecem um potencial imenso para explorar nichos de mercado e atrair investidores.
Essas estratégias, quando aplicadas com visão e execução, não apenas reposicionam empresas no mercado, mas também permitem que elas enxerguem sinergias que antes eram invisíveis.
“Os spin-offs e M&A são mais do que ferramentas de crescimento; eles são motores para garantir a perenidade dos negócios.”
O Papel conjunto no crescimento empresarial
Além disso, spin-offs podem ser utilizados como uma preparação para M&A. Quando uma unidade de negócios se torna independente, ela pode se tornar mais atrativa para investidores ou potenciais compradores. Paralelamente, as empresas-mãe podem aproveitar os spin-offs para explorar novos mercados sem comprometer a estrutura principal.
Por outro lado, aquisições podem complementar a estratégia empresarial de spin-offs ao incorporar tecnologias ou capacidades que aceleram o sucesso da nova entidade ou mesmo o sucesso da empresa-mãe. Ou seja, as possibilidades são inúmeras.
“Spin-offs criam a agilidade necessária para explorar novos mercados e testar novas oportunidades. Já as aquisições estratégicas (M&A) trazem os recursos e a expertise necessários para escalar as operações principais das empresas-mãe, fortalecendo sua presença no mercado.”
Dados do mercado e tendências
Olhando para o mercado global, vemos que o setor de M&A movimentou US$ 4,7 trilhões em 2022, um indicador claro de que empresas estão apostando nessas estratégias para se reinventar.
Cosméticos:
- O mercado global de cosméticos é avaliado em US$ 380 bilhões e cresce a uma taxa de 5,1% ao ano até 2030.
- No Brasil, as transações de M&A cresceram 15%, impulsionadas por tendências como clean beauty e digitalização.
Farmacêutico:
- Este setor registra um crescimento anual de 8,1%, com foco em personalização e tecnologias de precisão.
- No setor farmacêutico, o conceito de M&As é amplamente associado ao desenvolvimento de pipeline de moléculas e à ampliação da capacidade de P&D científico.
- Algumas empresas estão investindo em spin-offs e aquisições para acessar novos mercados, como estética e bem-estar. Assim como investimentos para acelerar sua presença e atuação na jornada de prevenção, diagnóstico e tratamento de pacientes.
Esses números refletem um movimento que percebo como uma verdadeira mudança de paradigma. Não se trata apenas de seguir tendências, mas de criar novos caminhos de crescimento.
Overview de alguns cases de sucesso: cosméticos e farmacêutico
- Natura e Singu:
A aquisição da Singu pela Natura foi uma jogada estratégica para fortalecer sua presença no digital e atender à crescente demanda por serviços on-demand. “A compra da Singu não foi apenas sobre tecnologia, mas sobre transformar a maneira como as empresas interagem com consumidores digitais.” - Granado e Care Natural Beauty:
Ao adquirir a Care Natural Beauty, a Granado se posicionou na vanguarda da clean beauty. A aquisição trouxe um portfólio focado em sustentabilidade, um atributo cada vez mais valorizado por consumidores exigentes. - CIMED com Milimetric PRO:
A CIMED, uma das maiores farmacêuticas do Brasil, decidiu expandir sua atuação para o mercado de estética com o lançamento da marca Milimetric PRO. A linha Milimetric PRO é destinada exclusivamente a profissionais de saúde habilitados, como médicos, dentistas, biomédicos, farmacêuticos, fisioterapeutas e enfermeiros especializados em estética. Com essa iniciativa, a CIMED projeta ampliar seu faturamento em R$ 1 bilhão nos próximos cinco anos, demonstrando a eficácia de um spin-off bem estruturado para explorar novos mercados e impulsionar o crescimento corporativo.
O Caso Milimetric PRO: uma revolução no mercado de estética
Quando falamos sobre spin-offs no Brasil, o Milimetric PRO é um exemplo que merece destaque. Este projeto, idealizado como um spin-off da CIMED, foi uma das iniciativas mais desafiadoras e transformadoras que acompanhei.
O desafio: A CIMED buscava criar um modelo de negócios B2B digitalizado e disruptivo para o mercado de estética, focado exclusivamente em profissionais habilitados como médicos, biomédicos e farmacêuticos. Era mais do que uma expansão; era uma aposta em inovação e personalização.
Os resultados:
- Validamos o modelo de negócios, a operação e a estratégia de vendas e crescimento dessa potencial nova fonte de receita, de forma que fosse completamente diferenciada das ofertas já existentes no mercado.
- Criamos um modelo de negócio que atende a todos os profissionais, de diferentes regiões, garantindo acessibilidade às práticas e aos produtos para aumentar a penetração de procedimentos estéticos para a população brasileira.
- Reorganizamos toda a estrutura que sustenta a evolução contínua. Combinando a base de vendas, a base de operação e time, atendimento digital, a integração com operadores logísticos e o formato de pagamento, CRM, BI e Dados.
Com um investimento de R$ 50 milhões, o Milimetric PRO já se posiciona como líder em tecnologias avançadas para estética, trazendo produtos como preenchimentos faciais à base de ácido hialurônico, desenvolvidos em parceria com laboratórios da Coreia do Sul (Fonte: Website CIMED e Grand View Research).
Milimetric PRO: marketing de influência e canais de distribuição
Um dos maiores aprendizados do case Milimetric PRO foi a capacidade de adaptar-se ao comportamento do consumidor. No mercado de estética, a CIMED inovou ao definir novos canais de distribuição e ao investir fortemente em marketing de influência. A estratégia foi transformar os principais usuários do produto em parceiros influenciadores digitais.
Ao potencializar sua presença em redes sociais e criar uma conexão direta com o público B2C, a CIMED viralizou o Milimetric PRO, gerando uma onda de interesse e reconhecimento que extrapolou o nicho inicial. Essa abordagem não apenas consolidou a marca no mercado de estética, mas também demonstrou como a combinação de marketing digital e parcerias estratégicas pode reinventar o alcance de uma spin-off.
“O que o Milimetric PRO nos ensinou é que spin-offs são plataformas para explorar novas oportunidades com agilidade, ao mesmo tempo em que conectam tecnologia e estratégia de maneira única.”
Aprendizados dos setores de cosméticos e farma
Os setores de cosméticos e farma possuem muito a aprender um com o outro, especialmente em termos de estratégias de spin-offs e M&A. Enquanto o setor de cosméticos frequentemente utiliza essas estratégias para criar novas marcas e diversificar portfólios, farma tende a focar exclusivamente em pesquisa e desenvolvimento.
Minha experiência nesses dois setores revela lições valiosas sobre como usar M&A e spin-offs para gerar valor além do BAU – Business As Usual.
1. Setor de cosméticos: diversificação e inovação além das novas marcas
As aquisições têm sido amplamente utilizadas para diversificar portfólios e alcançar novos consumidores no setor. Um exemplo é a criação da Eudora pelo Grupo Boticário, que demonstrou como expandir o alcance sem comprometer a identidade da marca principal.
Assim também como aquisição da Care Natural Beauty pela Granado, que reforça como alinhar o portfólio às demandas dos consumidores por produtos limpos e sustentáveis pode gerar novas receitas e consolidar ainda mais a reputação da marca.
Porém, é necessário ampliar essa visão para além do foco em novas marcas e mercados. O aprendizado chave está em explorar spin-offs como ferramentas para impulsionar inovação em P&D, permitindo lançar novos produtos de forma mais rápida e eficiente. Essa abordagem pode reduzir a dependência de aquisições ou da expansão focada exclusivamente em abranger o alcance, gerando inovação diretamente no núcleo do portfólio já existente.
2. Setor farmacêutico: mais que portfólio de P&D
Como já vimos, o conceito de M&As no setor farmacêutico, ainda é fortemente associado à ampliação da capacidade de P&D que resulta em novos pipelines de moléculas. Embora essa seja uma abordagem central, existem outras possibilidades igualmente relevantes que merecem destaque.
Por exemplo, ampliar a visão sobre diversas jornadas do cliente e a partir disso criar spin-offs para explorar novos canais de vendas, isso representa uma oportunidade de diversificação de receita que vai além do tradicional foco em P&D. Em um mercado tão competitivo, empresas precisam olhar além das abordagens estabelecidas, aprendendo com outros setores.
Além de ampliar o pipeline de P&D com M&As, as spin-offs no setor farmacêutico podem ser estratégicas para diversificar modelos de negócios e explorar novas áreas terapêuticas. Por exemplo, uma empresa farmacêutica pode formalizar uma parceria ou constituir uma spin-off focada em biotecnologia para desenvolver terapias avançadas, como medicamentos biológicos ou terapias gênicas, sem desviar o foco de suas principais operações. Essa abordagem permite à empresa-mãe entrar em mercados emergentes e inovadores com maior agilidade, aproveitando a estrutura mais flexível da spin-off para acelerar o desenvolvimento e a comercialização de produtos inovadores. Além disso, ao estabelecer uma spin-off dedicada, a empresa pode atrair investimentos específicos e formar parcerias estratégicas que potencializam o crescimento no setor.
Conclusão: expandindo horizontes e repensando o futuro dos negócios
Para mim, Spin-off e M&A não são apenas ferramentas para reorganizar portfólios; são catalisadores para inovação e crescimento estratégico rápido e palpável. Porém, seu verdadeiro valor reside na capacidade de questionar abordagens tradicionais e explorar novos horizontes.
A reflexão precisa ir além do foco em P&D. Como as empresas podem utilizar spin-offs para criar novos canais de vendas e jornadas de consumidores? Existe um potencial inexplorado em trabalhar diretamente com o consumidor final, uma estratégia que o setor cosmético já domina e que pode ser um divisor de águas para farma.
O desafio está em diversificar portfólios sem depender exclusivamente da criação de novas marcas do zero. Por que não utilizar aquisições e spin-offs para entrar em mercados de forma mais ágil e com menor risco? Essa abordagem pode acelerar o acesso a novas receitas e fortalecer a competitividade.
Ambos os setores precisam superar a miopia de suas estratégias atuais. Farma e cosméticos têm muito a aprender um com o outro. A troca de insights sobre como maximizar receitas, inovar e explorar novos mercados por meio de spin-offs e M&A pode destravar oportunidades que ainda não foram exploradas.A provocação final é simples: os mercados estão mudando rapidamente e as empresas que continuam fazendo “mais do mesmo” correm o risco de perder relevância. O futuro pertence àquelas que ousam expandir as fronteiras do que é possível, utilizando spin-off e M&A não como soluções isoladas, mas como parte de uma visão estratégica maior.
Como sua empresa está se posicionando para responder a esse chamado?