Na manhã de ontem, cruzamos as portas do Café Journal e, de certa forma, entramos em um universo que mais parecia o País das Maravilhas de Alice. Mas, ao contrário de encontrar coelhos apressados e chapeleiros malucos, nos deparamos com uma realidade que exigia uma reflexão profunda sobre a liderança no contexto das incertezas contemporâneas.
O evento Liderança em Tempos de Incerteza, realizado pela ACE Cortex em parceria com a MIT Technology Review Brasil, foi um convite para questionar o que já sabemos sobre a liderança e, mais importante, sobre as decisões que tomamos hoje e como elas moldam o futuro das nossas organizações. O tema central do evento, “E se o futuro da sua organização depender das perguntas que sua liderança ainda não está fazendo?”, lançado por Milena Fonseca, CEO da ACE Cortex.
Essa simples, mas poderosa pergunta nos desafiou a olhar para a nossa liderança sob uma nova ótica. E se, na busca por soluções e respostas imediatas, estamos deixando de fazer as perguntas certas?
Assim como Alice, que no País das Maravilhas se via constantemente em um mundo onde nada parecia fazer sentido, fomos desafiados a olhar para o futuro das nossas organizações com novos olhos. A liderança de hoje precisa deixar de lado certezas antigas e começar a questionar o que antes parecia imutável. Afinal, como Milena nos lembrou, o futuro das organizações depende não apenas de quem lidera, mas das perguntas que essas lideranças estão dispostas a fazer.
Com essa provocação, o evento nos encaminhou para uma jornada cheia de provocações que atravessaram cada bloco da agenda, desafiando nossos paradigmas, assim como Alice ao longo de sua aventura. Cada fala, cada insight, foi como uma peça de um quebra-cabeça estratégico, nos empurrando para refletir sobre como podemos reimaginar, reinventar e responder aos desafios que a liderança atual enfrenta, e, ao mesmo tempo, nos preparar para o futuro.
Esse foi apenas o começo de uma manhã que se mostrou cheia de descobertas, transformações e profundas reflexões. A jornada estava apenas começando, e as perguntas estavam prestes a guiar o caminho para as respostas que ainda não tínhamos encontrado.
Reinventar: Questionar certezas
Se você já leu Alice no País das Maravilhas, talvez se lembre do momento em que a protagonista, perdida num mundo de lógica distorcida, pergunta ao Gato de Cheshire qual caminho deve seguir. Ele responde: “Depende de onde você quer chegar”. É exatamente esse o ponto de partida do bloco Reinventar, em que fomos convidados a refletir sobre a seguinte provocação: Se você não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve.
Essa frase, que abriu a fala de Luana Piva, Diretora de Inteligência Competitiva da ACE Cortex, não foi apenas uma metáfora bonita. Foi um alerta estratégico. No mundo atual, em que os ciclos de inovação são curtos, o comportamento do consumidor muda rapidamente e a tecnologia redefine setores inteiros, ainda estamos formando líderes para operar em estruturas previsíveis. E é aí que mora o problema.
Luana nos levou a encarar um paradoxo: enquanto o mercado se move em alta velocidade, muitos líderes ainda operam com base em certezas do passado. Com isso, perdem o tempo de resposta necessário para criar vantagem competitiva. Ela comparou essa dinâmica à de Alice: quando não sabemos para onde estamos indo, qualquer caminho parece suficiente — até que percebemos que o tempo passou e o mercado seguiu em outra direção.
No centro de sua fala, estava a necessidade de desafiar os modelos mentais tradicionais que moldam nossa forma de liderar. Especialmente o Pipeline de Liderança, criado em um contexto onde previsibilidade era sinônimo de sucesso. Hoje, esse modelo reforça a separação entre estratégia e execução, concentra a visão de negócio apenas no topo e trata a liderança como um processo de ascensão linear, e não como uma prática de adaptação contínua. O resultado? Lentidão, fragmentação e uma cultura de conformidade.
Luana provocou: Como esperar coragem, autonomia e inovação de uma liderança que passa o dia pedindo aprovação para seguir adiante? Em vez de formar líderes para subir na hierarquia, precisamos formá-los para destravar a organização.
Reinventar, portanto, não é apenas sobre ter boas ideias — é sobre desenvolver a capacidade de desafiar verdades estabelecidas, reconfigurar modelos mentais e abrir espaço para novas possibilidades. E essa jornada, como a de Alice, exige mais do que curiosidade. Exige ousadia para fazer as perguntas certas, mesmo quando ninguém tem as respostas.
A verdadeira transformação começa quando deixamos de procurar caminhos prontos e passamos a construir os nossos.
Reimaginar: Criar e antecipar múltiplos cenários
Assim como Alice, que ao cair no País das Maravilhas se viu em um mundo onde nada parecia fazer sentido, o bloco “Reimaginar” nos desafiou a questionar o mundo corporativo em que estamos inseridos e a imaginar novas possibilidades para o futuro. Rafael Coimbra, Editor-executivo da MIT Technology Review Brasil, abriu sua fala com uma provocação do Livro de Lewis Carroll, que ressoou com todos os presentes: “É preciso correr muito para ficar no mesmo lugar. Se você quer chegar a outro lugar, corra duas vezes mais.”
Essa frase encapsulou o ritmo frenético das mudanças no mercado atual. Em um mundo em que a velocidade da transformação e a inovação dominam, não podemos mais esperar que as estratégias de ontem sejam capazes de resolver os problemas de amanhã. Rafael nos convidou a refletir sobre como devemos acelerar nossa capacidade de adaptação para acompanhar um mercado em constante evolução.
A reflexão estratégica de Rafael se concentrou na ambidestria organizacional, ou seja, na capacidade das empresas de equilibrar execução operacional com inovação estratégica. Em tempos de mudanças vertiginosas, ele ressaltou que qualquer liderança que não consiga se adaptar rapidamente ficará para trás. “A inovação não é um bônus, é uma exigência para qualquer organização que queira prosperar em tempos de incerteza,” ele afirmou, reforçando que a inovação deve ser parte integral da estratégia, não uma reação pontual a novas tendências.
Rafael foi claro em sua provocação: estratégias vencedoras de ontem podem ser obsoletas amanhã. Ele trouxe dados alarmantes sobre a rápida obsolescência no mundo corporativo, destacando que, em 2023, mais de 50% das empresas listadas no índice S&P 500 desapareceram ou foram reestruturadas devido à sua incapacidade de se adaptar às novas dinâmicas do mercado. Esse dado reflete a realidade de que nada é garantido no mundo dos negócios e que, para sobreviver, os líderes precisam ser proativos e reimaginar o futuro constantemente.
Rafael também trouxe à tona um alerta sobre o modismo tecnológico. Com a pressão constante para adotar novas tecnologias, ele destacou a necessidade de compreender o real valor de cada inovação. Segundo ele, “A tecnologia não suporta estratégia, ela é a própria estratégia que molda o futuro das empresas.” A inovação não deve ser implementada apenas porque está na moda, mas alinhada diretamente às necessidades estratégicas da organização. Nesse ponto, Rafael fez uma crítica a muitas empresas que não sabem distinguir entre uma tecnologia relevante e um simples barulho no mercado.
Ele enfatizou a importância de repensar o modelo mental da liderança: não basta mais seguir caminhos previsíveis ou confiar nas estratégias antigas. Para ele, a verdadeira transformação começa com a capacidade de questionar as certezas e pensar no longo prazo. “Estratégias vencedoras de ontem podem ser obsoletas amanhã – a chave está em se antecipar ao que vem, não apenas reagir ao presente.” Essa visão estratégica de proatividade foi uma das mensagens centrais de sua fala, nos desafiando a não esperar que o futuro simplesmente aconteça, mas a ser arquitetos desse futuro.
Rafael também compartilhou um ponto essencial: a inovação deve ser contínua e parte de uma estratégia bem estruturada. Ela não deve ser algo esporádico, mas uma exigência constante para qualquer organização que queira prosperar no mundo da incerteza.
Rafael concluiu sua fala com a certeza de que as organizações de sucesso no futuro serão aquelas que têm coragem de questionar suas certezas e se adaptar rapidamente às mudanças. Inovação e estratégia não podem mais ser vistas como atividades separadas, mas sim como componentes interdependentes de um modelo organizacional ágil e futurista. Assim como Alice, que precisou de coragem para questionar e entender um mundo totalmente novo, as organizações de hoje precisam ter a mesma disposição para reimaginar seu futuro e se ajustar às incertezas que se apresentam.
Responder: Destravar e gerar valor hoje
No último bloco da manhã, nossa jornada chegou a um momento decisivo. Como Alice, que precisava encontrar uma saída do labirinto para seguir adiante, fomos convocados a agir. O bloco “Responder – Destravar e Gerar Valor Hoje” foi uma verdadeira chamada à ação, e coube a Kim Silvestre, Sócio e Diretor de Performance da ACE Cortex, nos lembrar que tempo, em tempos de desordem, é um recurso que não pode mais ser desperdiçado.
Kim abriu sua fala com uma provocação direta: “Dizem que o tempo resolve tudo. A questão é: quanto tempo?” Essa pergunta nos tirou da passividade e nos obrigou a refletir: até quando as empresas vão esperar por respostas que deveriam estar construindo? Em um ambiente onde a complexidade é a regra e a instabilidade não é exceção, a lenta tomada de decisões e a burocracia organizacional se tornaram inimigas do crescimento.
Kim deixou claro que a lentidão é uma ameaça real. Empresas presas a modelos de gestão ultrapassados, engessadas por múltiplos indicadores e camadas de aprovação estão perdendo o timing do mercado. Ele reforçou a necessidade de um foco claro: “A performance que buscamos não é mais uma corrida de resistência, mas um sprint contínuo.”
A partir disso, o discurso se tornou mais contundente. Kim trouxe números que escancararam a urgência:
- 60% dos líderes de grandes empresas não conseguem acelerar seus processos de inovação devido a entraves culturais e falta de autonomia das equipes.
- 70% dos funcionários no Brasil estão desengajados, segundo o estudo da GALLUP.
Esses dados mostram o custo real da inação e apontam para um problema estrutural: a ausência de propósito e clareza de direção.
Kim fez questão de sublinhar que a estabilidade em tempos de incerteza não é um ponto de partida, mas uma habilidade construída intencionalmente. Como ele afirmou: “A estabilidade em tempos de incerteza não é um dado, mas uma habilidade que devemos construir com clareza de propósito e ação decisiva.”
Esse bloco nos levou a refletir profundamente sobre como as organizações estão definindo suas prioridades. Kim compartilhou exemplos práticos e reais, desde empresas que gastaram milhões em soluções tecnológicas sem impacto direto, até líderes que perdem tempo implementando métodos ágeis sem saber por que estão fazendo isso.
Segundo ele, o excesso de rituais sem propósito, métricas sem foco e metodologias vazias têm transformado a gestão em um teatro da eficiência. Para Kim, “Não é o volume de dados que faz uma empresa inovadora, mas a velocidade com que conseguimos transformá-los em ações estratégicas e eficazes.”
Ele também alertou sobre o risco da liderança entrópica — um estado de insegurança e inconstância onde o medo paralisa decisões e a falta de direção gera desmobilização nas equipes. Liderar nesse cenário exige uma mudança de mentalidade: assumir riscos, promover a autonomia e construir um ambiente onde a ação não dependa da aprovação, mas do alinhamento com o propósito da organização.
Em seu discurso, Kim reforçou que clareza estratégica é a base da agilidade. Sem saber “qual jogo a empresa está jogando”, líderes e equipes ficam perdidos em tarefas, confundindo movimento com progresso. Ele trouxe o exemplo da LocaWeb, que pausou todas as métricas por seis meses para focar apenas no NPS, como forma de alinhar a organização em torno de uma única prioridade de negócio. Esse tipo de decisão estratégica e radical é, para ele, o tipo de resposta que o mercado de hoje exige.
Ao final, sua mensagem foi clara:
– O futuro não espera por processos lentos.
– A performance que as empresas precisam não será construída com métodos prontos, mas com liderança corajosa, decisões estratégicas e ações focadas em gerar valor real agora.
Esse bloco encerrou a sequência de conteúdos com clareza brutal e urgência estratégica. Se antes havíamos sido provocados a reimaginar e reinventar, aqui fomos chamados a responder, agir, destravar. Porque, como bem lembrou Kim, não basta mais saber o que precisa ser feito. O futuro exige que seja feito agora.
Painel A jornada da liderança: Perguntas que moldam o futuro
No painel final do evento, Milena Fonseca, Sócia e CEO da ACE Cortex, voltou ao tema central, levando os participantes a refletirem sobre a liderança transformacional no contexto de um mercado em constante mudança e incerteza. Juntamente com José de Luca (Zeca), Diretor de Omnichannel da GSK, e Liao Yu Chieh, Diretor de Ensino da Faculdade Sírio-Libanês, levantaram a reflexão inicial de que, muitas vezes, as respostas que buscamos já estão no próprio ato de questionar, convidando todos a pensar além do presente e a imaginar um futuro construído com base nas perguntas certas.
A discussão sobre o papel dos líderes do futuro foi iniciada com a ideia de que a liderança não se trata apenas de gerir, mas de questionar constantemente, pois é o questionamento que molda o futuro das organizações.
O painel abordou uma diferenciação crucial: a mobilização das equipes não deve ser confundida com incentivo. Mobilizar vai além de motivar; trata-se de orientar a ação coletiva e garantir que todos os membros da organização estejam alinhados e engajados com a missão da empresa. A liderança eficaz é medida pela capacidade de mobilizar e alinhar os esforços para uma direção comum.
Foi reforçado que, para isso, a missão deve ser clara, e a visão de longo prazo precisa ser compartilhada com todos os membros da organização. A verdadeira liderança exige que todos entendam a direção e contribuam ativamente para o sucesso da organização. Quando a visão não é compartilhada, as estratégias falham, e é necessário alinhar todos, do estagiário ao CEO, para que cada um entenda sua contribuição para o sucesso.
Uma das reflexões mais profundas do painel foi sobre a confiança nas equipes. A confiança é fundamental para liberar a capacidade criativa e a proatividade nas equipes. A liderança não se resume a administrar, mas a transformar, dando aos times a autonomia necessária para tomar decisões e agir sem medo de errar. Agir sem medo do erro é o que libera o potencial transformador das equipes.
Foi destacada também a necessidade de questionar o status quo, já que liderança não é apenas sobre reagir às mudanças, mas sim sobre ter a coragem de ir além do que já é conhecido, enfrentando as instabilidades que surgem ao longo do caminho. O medo da instabilidade, muitas vezes, impede muitas lideranças de implementar mudanças necessárias.
A coragem de desafiar os modelos tradicionais e a busca por novas ideias são essenciais para que as verdadeiras transformações aconteçam. A verdadeira liderança é sobre mobilizar a ação, mais do que simplesmente incentivar, e quando a missão é clara, as equipes se tornam imparáveis.
Um dos pontos mais marcantes do painel foi a criação de um ambiente de confiança nas equipes. A confiança não surge de forma imediata, mas se constrói ao longo do tempo e é um pilar essencial para o engajamento e o desempenho das equipes. Para fortalecer a confiança, os líderes devem ser consistentes em suas ações e tratar as falhas como oportunidades de aprendizado, não como motivos para punição.
O painel também abordou a importância de uma visão compartilhada dentro das organizações. As empresas que possuem uma visão clara e um propósito bem definido tendem a ser mais resilientes e adaptáveis às incertezas do mercado. Para garantir que todos na organização saibam para onde estão indo e como suas ações contribuem para o sucesso coletivo, a visão deve ser clara para todos: a verdadeira liderança envolve a capacidade de criar um ambiente onde todos se sintam responsáveis por contribuir para a realização da visão organizacional.
O painel encerrou com uma reflexão sobre como o futuro das organizações será determinado pela capacidade de transformação contínua. Os líderes de amanhã não serão apenas executores de estratégias, mas visionários que reimaginam o futuro de suas organizações, criando um ambiente de inovação constante.
Encerramento: a transformação está nas suas mãos
O evento foi mais do que um encontro de ideias: foi um chamado à ação. Assim como Alice, que questionou tudo ao seu redor para encontrar seu caminho, fomos desafiados a questionar as certezas do passado e imaginar um futuro de liderança mais ágil, inovadora e conectada com o mercado. O recado foi claro: a transformação não será voluntária, ela é necessária.
O futuro da nossa liderança depende das perguntas que estamos fazendo hoje. A transformação começa agora e só será possível se tivermos a coragem de questionar o que parecia imutável, reimaginar e reinventar nossa forma de liderar e responder, gerando valor no presente, sem esperar pelo momento ideal. É hora de agir.